Sobre a leitura*

As considerações desse texto passam por uma tentativa de pensar um procedimento essencial para o ensino: a leitura. Se no discurso universitário a leitura serve para o acúmulo de saber e os pontos obscurecidos da leitura são tomados como impotência em que o mal-entendido pode e deve ser suturado, no discurso analítico a leitura é um procedimento de perda que encontra sua estrutura justamente no mal-entendido suportado por um “não-para-ler”. Se, no primeiro, poderíamos tomar como direta a relação entre leitura e escrita, entre ensino e aprendizagem, no segundo, Lacan (2008, p. 43) aponta sua disjunção: “o que vocês o ensinam a ler, não tem absolutamente nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever a respeito”.

A leitura é um ato que fica suspenso entre o objetivo (o texto) e o subjetivo (o texto do leitor). Poderíamos dizer que alguém lê um texto a partir dos textos que leu do mundo, daquilo que comporta o seu texto. E, mais ainda, ou talvez, sobretudo, mobilizado pelo ilegível desse texto, seu fora de sentido. Sendo assim, há sempre uma surpresa na leitura – ela invariavelmente é diferente. Jamais se esgotará a obra de Lacan, por exemplo, embora ela seja limitada, sua leitura, no entanto, é infinita.

A dimensão do saber vincula-se ao inconsciente como uma máquina de leitura, “e não é outra coisa, essa história do inconsciente, de vocês. Não só vocês supõem que ele sabe ler, como supõem que ele pode aprender a ler”. “Ele é estruturado por uma linguagem”, insiste Lacan (2008, p. 53), “como os ajuntamentos de que se tratam na teoria dos conjuntos como sendo letras”. Trata-se de produzir, construir, um sentido no texto.

A premissa de que a leitura cria um contexto, no entanto, não garante que haja compreensão, mas apenas referência. Será Lacan que incomodará mais ainda essa perspectiva: na contracapa dos Outros Escritos, ele diz: Pas-à-lire. Não-para-ler. E, perguntamos: como ler essa indicação de um livro que se chama justamente Outros Escritos e que abre justamente com um texto sobre literatura? Se é não-para-ler, podemos fazer qualquer coisa com o texto. E destaco aqui a dimensão do fazer.

Essa advertência, contudo, parece menos como um indicativo de “para não ler”, que é própria do movimento da leitura como afirma Barthes (2004, p. 17): “é o próprio ritmo daquilo que se lê e do que não se lê que produz o prazer dos grandes relatos”. Não-para-ler parece estar mais próximo de uma proposição em que o texto se daria para nãotoda leitura. Se um texto é não-para-ler é porque ele aponta não só para o ilegível da escrita, mas também para que com o ilegível apareça a dimensão do fazer que é, paradoxalmente, tributário do que é passível de leitura. Poderíamos pensar, com Miller, que os escritos são não-para-ler um sentido, para poder depreender da escrita um fazer? E, se a hipótese é valida, como introduzir a (nãotoda) leitura de Lacan na universidade?

Referências:

Barthes, R. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2004.

Lacan, J. O seminário, livro 20, mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Miller, J.-A. Piezas Sueltas. Buenos Aires: Paidós, 2013.

*Texto apresentado no primeiro encontro da Rede IUFI em setembro de 2017.

 

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