amar e mudar as coisas

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O amor é posto em marcha com um ato criativo, seja ele na arte seja na psicanálise. E ela, a arte, tem o que nos ensinar. Vejamos, então, muito brevemente uma aposta no enlace entre o amor e a cidade. O documentário AmarElo, feito pelo músico ou, como ele gosta de ser chamado, contador de histórias, Emicida, apresenta em seu próprio título amor e laço. Evidentemente, não se trata de um amor romântico, complementar e idealizado, mas de um amor que, nas fissuras do mundo, nas fraturas da história, ou seja, com seus restos, inventa uma forma de estar no mundo. Emicida decide fazer seu show no Teatro Municipal de São Paulo que mobiliza, no coração cultural de uma metrópole marcada pela segregação, a ocupação de um espaço em uma reversão do tempo: Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje. Conta uma história a contrapelo, essa história que atravessa qualquer habitante do planeta, que constitui cada um querendo ou não. A escravidão que se perpetua, os lugares marcados do racismo estrutural, vai ganhando as notas, os sons, os tons, as lutas, os rostos e as cores das vidas. Emicida dá, ali, corpo, faz brilhar uma centelha que não poderia ser chamada de outra coisa senão de uma outra forma de amor em que subverte o uso de um pronome, nóiz, que marca a diferença, identifica, nomeia, aponta e que, ao mesmo tempo, atravessa, fura e marca um novo começo, um marco completamente outro para ler um país que, ele sabe, não existe. Nenhum Brasil existe, dizia Drummond, e AmarElo mostra com doçura e firmeza que, para compartilhar um mundo, para que alguma coisa do comum se estabeleça, ou seja, para todo elo, para todo laço que pretenda escapar da segregação, há de se apostar em um amor, sempre novo, que comprometa. Emicida o constrói lendo, interpretando o mais real do sintoma de um povo: o racismo e suas variações infiltradas no cotidiano seja na versão piedosa ou na versão mais cruel. Ali onde as mãos pretas foram mão de obra escravizada, ele mostra que foram mais, e termina o filme com a luz mais forte de um sorriso que desapareceu, mas que não se apaga. O amor é, em AmarElo, revolta e coragem, uma prática da língua que transforma a história e a gramática, que desafina o coro dos contentes, que diz que só me interessa o que não é meu, esse princípio tão radical da alteridade e que, na ponta da língua, pode ser o farol de um amor anti-narciso.

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