Atritos *

Inumeráveis é um perfil criado nas redes sociais para fazer um obituário dos mortos no Brasil por Covid-19. Essa iniciativa tenta resgatar do acúmulo anônimo dos números, nomes, sonhos, traços das vidas perdidas em meio a uma pandemia que, não bastasse a virulência do vírus, veio aprofundar ainda mais a tamanha desigualdade que nos assola. Inumeráveis conta sobre as vidas onde só se queria contar os corpos. Fernanda Bruno, professora da UFRJ, em uma conferência recente, falava de uma cena que ilustra muito bem o Brasil contemporâneo[1]. Quando se contavam 40.000 mortos no país, a ONG Rio de Paz fez um ato na praia de Copacabana onde cavaram 100 covas rasas e puseram cruzes em cada uma delas. Um senhor, descontente com a manifestação, começou a derrubar as cruzes sob aplausos e gritos de pessoas da calçada que diziam “tira essa esquerda daí”, “manda essa esquerdalha embora”, “Brasil”, “Brasil”. Em seguida, o pai de um jovem de 25 anos que morrera de Covid-19 recoloca as cruzes dizendo que é preciso respeitar os outros, respeitar a dor dos outros. É impossível não se perguntar o que se passa aqui. Como se passa de um gesto a outro? Como se designam essas posições?

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