Pequena nota sobre o método

Li há pouco tempo um fragmento, um começo, de texto da Alessandra Martins Parente que ela tinha escrito para um congresso quando do nascimento do seu filho. Nesse fragmento ela falava da falta de um pretenso rigor filosófico e de um pensamento vivo, da nova posição que ocupou para pensar e escrever um texto que não era de horas de biblioteca, mas no meio do caos e cansaço depois de um dia dedicado aos cuidados de uma criança. Um lugar sem fixidez do saber, lugar da mulher, da mulher-mãe, sobretudo, de um saber claudicante e cheio de possíveis, precário e ávido, que comporta um ponto irredutível do feminino. De fato, não há como pensar e escrever do mesmo modo depois de um filho. O tempo e o espaço não têm mais a mesma configuração, alguma coisa se desloca.

Minha nota vai nesse sentido. Aqui já não cabe mais um tom de desculpa por um não ter feito mais ou melhor, trata-se de assinalar um método. Neste momento em que cuido de um bebê, momento em que leio, cozinho, brinco, dou colo, em que o ajudo a ler o mundo, em que imprimo letras para que ele possa ler, escrever, e tramar suas letras, seus textos no mundo, o que outrora seria o inacabado ou imperfeito, ganha, para mim, o status radical de começo, de começo da vida, de começo do texto, começo de leitura. Então é a partir dessa experiência vital, desse lugar inédito, absolutamente atravessada pelo corpo, pela bagunça, choros, sorrisos, pelos ruídos de pura língua, pelos começos de palavras, pelo cansaço e pela alegria, por esse que veio de mim e é outro, desse ponto inquietante e êxtimo, dessa experiência que se escreve no meu corpo: só assim e com tudo isso poderei escrever algum texto.

(Essa nota sobre o método antecedeu o texto Corpo do texto e texto do corpo que apresentei na última ABRALIC no Simpósio Performar a Literatura)

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As imagens, os corpos e o resto

Diante do espelho uma criança observa-se com júbilo e é apresentada a um corpo inteiro, a uma unidade corporal que a livra da angústia de um corpo fragmentado. Um corpo ganha forma aí, pela imagem refletida no espelho. A duplicação do corpo, a imagem com a qual a criança gesticula, brinca, anima, revela, explica Lacan, uma “estrutura ontológica do mundo humano”[1]. Essa afirmação ontológica de Lacan não diz outra coisa senão que o ser é uma imagem. Ou seja, já não se trata de uma consistência material que sustenta o ser, ou de alguma transcendentalidade de consciência, o ser forma-se na imagem e é imagem. Somos, portanto, a princípio, imagem e é a partir dela que formaremos nossos laços, é a partir dela que assumiremos um modo de vida, enfim, é a partir dela que iniciamos uma ficção sobre quem somos.

É através da imagem que nos identificamos, diz Lacan: Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação tal qual a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago[2].

A identificação de que Lacan fala pode ser lida como a apropriação de uma imagem refletida no espelho como se – aqui se ressalta o caráter ficcional – fosse a sua imagem. A instância imaginária desse eu é o que estabelece a linha de ficção que começa a nos dar sentido. É essa capacidade de identificação com a imagem que também nos habilita a projetar imagens (que nunca são próprias, mas sim apropriadas, roubadas, emprestadas, etc.). Isto é, na medida em que nos refletimos no espelho, que nos apropriamos de uma imagem, que formamos um eu, passamos também a veicular imagens. Este é um modo, lembra Ram Mandil, “de conferir consistência ao corpo (…). Trata-se do corpo como unificação de experiências fragmentadas, heterogêneas, cuja consistência seria assegurada pela sua forma”[3]. Até aqui falamos do corpo unificado, de identidades e identificações – de um corpo imaginário. Das imagens como mediação e da imagem do corpo como mediação com o real do corpo fragmentado.

Quando, porém, trabalhamos com a noção de falasser já não tratamos tanto dessa unidade imaginária consistente. Estamos muito mais perto do campo da fabricação com peças soltas, avulsas e, sobretudo, com as imagens de todo o tipo que nos rodeiam. Marcus André Vieira o disse da seguinte forma, partindo da colagem que Vik Muniz utiliza para montar seus quadros: “o resultado nos dá o sentimento tão contemporâneo de que a imagem que temos de nós mesmos só se sustenta enquanto a miramos de longe. Não me refiro ao conhecido tema segundo o qual de perto podemos enxergar os vícios e as imperfeições ocultas, mas sim perceber o quanto nossa auto-imagem, incluindo nisso o corpo, é resultado de uma fabricação”[4].

Lidar com a vertigem cotidiana das imagens que pipocam nas telas sem mesmo pedir autorização nos lança em um caos impossível de apreender na linearidade do tempo, na univocidade de uma identidade, de uma ideia total do corpo. Essa vertigem, portanto, exige um trabalho com o múltiplo, com os corpos, no plural, com a fugacidade das identificações, com a transversalidade do tempo e do espaço, tão própria das redes, com o que escapa. Sabemos que o encontro entre corpo e imagem é sempre falho. São instâncias que coexistem, mas não coincidem. Essas não coincidências, as fissuras que se abrem nesse jogo entre corpo e imagem fazem vacilar os ideais. Não raro, quando a identificação entre corpo e imagem fratura torna-se um motivo para um sujeito procurar uma análise. Mas quando já não estamos no campo da imagem unificada, orientadora e consistente, e sim numa colagem de imagens heterogêneas, que função tem as imagens?

Guy Debord, n’A sociedade do espetáculo, dizia que toda experiência foi convertida pela mediação das imagens e que não poderíamos viver diretamente, mas apenas por simulacros espetaculares que anestesiam a experiência. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.[5] Uma definição de facebook avant la lettre. O espetáculo e sua mediação pelas imagens tenta unificar os corpos por meio de um esforço identificatório que não corresponde apenas imaginário. Ele vai além: tratam-se de imagens que atuam no real do corpo. Se com o Estádio do Espelho tínhamos a unificação de experiência corporais em uma imagem, agora temos imagens que tomam corpo para serem experienciadas. Com a fragilidade dos laços sociais, as imagens funcionam como uma espécie de cola precária que sustentam identificações relâmpagos e que frequentemente são acompanhadas de tags como, por exemplo, “tal coisa ou fulano me representa”. Tenta-se conseguir uma identificação plena a cada interesse da ocasião, que elimine o resto, o que na imagem não cabe: das modas, das cirurgias plásticas à escolha de imagens de guerra, o que se coloca em cena é uma crença na identificação total que aplacaria as angústias através da sua coincidência, sem furo. Uma estratégia perigosa e totalitária já não mais centrada em uma figura. Um totalitarismo acéfalo, de sociedades anônimas.

Apesar de todos os esforços que, sabemos, não são poucos, existe ou melhor insiste um resto ineliminável. É com ele que a arte inventa e é com ele que a psicanálise trabalha fazendo existir o furo da imagem e fazendo aparecer o furo na imagem. Nenhuma ilusão totalizante ou totalitária: não se trata de reatar com a experiência perdida, ou de restituir uma velha ordem e nem tampouco lamentar sua perda. Não existe um mundo que tenha que ser salvo, ao contrário, temos mundos que são constantemente inventados e a nossa aposta é nos restos, nas peças soltas, nos vestígios das imagens.

Flávia Cera (flavia.cera@gmail.com)                                                                                                         Texto apresentado no XII Colóquio da EBP-PR: Corpos Lacanianos (outubro de 2015)

[1] LACAN, Jacques. “O estádio do espelho como formador da função do eu”. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

[2] Idem.

[3] Mandil, Ram (2015). Parlêtre e consistência corporal. Disponível em: https://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=8&pagina=48

[4] Vieira, Marcus André (2014). Apresentação do X Congresso Mundial da AMP. Disponível em: https://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=1&pagina=4

[5] Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.