Inscrever um cartel

Lacan coloca o cartel como base de sustentação do Campo Freudiano “onde cada um terá liberdade para demonstrar o que faz com o saber que a experiência deposita”. Guy Briole diz que colocar-se em cartel “é uma decisão que supõe alojar seu trabalho em uma estrutura definida para isso e referida à Escola. O cartel não é livre de toda referência, ele se inscreve na Escola.” O cartel não é da Escola, ele está na Escola. Por outro lado, o seu trabalho é o trabalho da Escola. O que não quer dizer que seja uma relação de pertencimento, ela é propriamente uma relação de extimidade. Uma dobradiça entre a psicanálise e a cidade, por exemplo, entre a psicanálise e a cultura, a política, etc.

O produto que nele se constrói e se extrai é de cada um, mas está referido à Escola que é o Outro a quem o saber produzido num cartel se dirige. Lembro que cartel é o diminutivo de carta que tem, portanto, um destinatário.

Miller aponta que no momento de criação dos pequenos grupos de trabalho por Lacan, havia, em Paris, um movimento universitário que propunha esse tipo de trabalho para contestar a figura do professor, da autoridade, em um gesto que precede e germina os acontecimentos de maio de 68. Daí, postula: o pró-cartel é anti-autoritário. Essa é uma de suas diferenças com o funcionamento de um grupo, tal qual descrito por Freud em Psicologia das Massas e do qual Lacan se serve para pensar seu dispositivo. O grupo precisa de um líder, uma figura orientadora, exemplar, etc., Lacan tratou de pensar o cartel como o seu avesso e dizia que esse trabalho não corresponde a uma hierarquia, ao contrário tem uma organização “circular cujo funcionamento se firmará na experiência” (Lacan. Ato de Fundação). É na experiência, no seu fazer, a cada vez, que o cartel se atualiza e se estabelece como força ativa de criação e intervenção que se opõe às certezas dos discursos do mestre. É por isso que se pode dizer que a Escola não está pronta e fechada, porque temos os AEs e os cartéis que, de lugares diferentes, a dinamizam. A Escola é um constante ponto de interrogação sobre a ordem social e suas práticas. Sua função, se podemos dizê-la assim, é fazer valer o real do furo do saber, seja ele da ciência, da religião, dos governos. Por isso Lacan nomeio o cartel como O trabalho da Escola, sua base de sustentação e como disse Beneti, a célula real da Escola (além do passe evidentemente, mas para ter AE e testemunhos, se passa por um cartel). Então, toda vez que as coisas tomarem rumo em que os ideais e as certezas prevaleçam na Escola ou fora dela, um cartel pode ser formado para fazer questão. A escola faz questão do cartel que faz questão.

Nesse lugar em que o saber não se totaliza e se encerra em um mestre, ele se estabelece como não-todo para justamente poder fazer aparecer um ponto de vazio através do qual o saber pode circular. A função do cartel nesse sentido está para a Escola (o cartel do passe talvez seja seu ponto de maior expressão) assim como o mais-um está para o cartel: trata-se de fazer um furo em toda e qualquer ideia de totalização; de fazer um furo para abrir, escoar e ecoar o mais singular de cada enunciação. Se o ponto de vazio vem desinflar e questionar as identificações imaginárias, ou melhor, os efeitos e posição de cola, se esse esvaziamento da posição de saber, faz com que o isso que é mais singular de cada participante ecoe, não há como em um cartel que funcione como tal se produzir outra coisa senão a diferença. Ele não visa então a equivalência entre os pares, mas sim a não relação.

A isso se soma o anti-didatismo citado por Miller no funcionamento de um cartel. Ora, se seu princípio é o impasse – e a psicanálise nesse ponto será sempre subversiva – o seu final não é a superação desse impasse, mas sua complexificação, sua elaboração, seu trabalho. É desde este ponto de vista que podemos ler o que Lacan aponta como quarto ponto da formalização do cartel, a saber: “não se espera nenhum progresso além daquele de uma exposição periódica, tanto dos resultados quanto das crises de trabalho”. Não se especializa em um cartel, não há um pós-cartel como uma pós-graduação, por exemplo. Um cartel permite com que cada sujeito se encontre com um estilo que lhe é próprio, sua relação ao trabalho, sua singularidade (Briole). Para isso ser possível, é absolutamente necessário que cada participante do cartel esteja enlaçado neste trabalho com seu desejo e suas questões de análise, supervisão, teóricas para que não seja uma reprodução de clichês, de alguns S1 como significantes mestres que circulem sem consequências subjetivas para os sujeitos que ali se encontram. Seus efeitos de formação são imprescindíveis para um analista.   

Lacan formaliza o cartel em um texto intitulado D`Ecolage. Descolar, decolar, descolarizar. Se na primeira vez que menciona o cartel tratava-se da fundação da sua escola, dada sua excomunhão, era justamente para ir contra o didatismo da IPA. Daí que sua inferência seja que o produto do cartel passe pela crítica e controle, que seja ele a porta de entrada da escola, e não por um didata – controle, leia-se supervisão. Um didata tem, como princípio, um saber acumulado que poderá transmitir ao seu aprendiz. Cabe ao mais-um transformar um pedido de ensino em transferência de trabalho. No Cartel há um saber que se produz, um saber que não é dado a priori, mas sobretudo, não é um tipo de saber que se se transforma em uma especialidade. Neste sentido, é um saber que se gasta, ele não visa uma acumulação, é um saber não-todo. O mais-um aí deve encarnar radicalmente essa lógica: não se aprende a ser mais-um, não se especializa em ser mais-um, porque ele é uma função. Para operá-la é preciso, ao contrário, livrar-se de toda especialização, descolar-se da posição de maestria, é colocar em jogo algo do seu desejo em uma aposta de trabalho a ser construído. É claro que, cabe a ele, algumas responsabilidades na condução desse trabalho, mas que deve ser exercida em sua subtração, como $, dividido, ou como se costuma dizer, como menos-um. Nessa decolagem, o mais-um lança-se também em um voo cujo destino será a viagem mesma, sua experiência, a experimentação de pequenos deslocamentos, de pequenos descolamentos. São os efeitos de cartel, os efeitos do trabalho do mais-um. 

Para concluir, eu diria que o cartel é uma experiência radical. É preciso que nele haja entusiasmo, que se saiba dos seus efeitos e de sua capacidade de intervenção e que a faça valer na Escola. Se tomamos o cartel como a célula real da Escola, é também porque na experiência de Cartel, o real de cada um está em jogo ali e, mais ainda, esse real conta. Seus traços sintomáticos, suas questões subjetivas, seu desejo, tudo isso conta. É com eles, a partir deles e apesar deles que se trabalha na e pela causa analítica. Inscrever um cartel implica, pois, colocar em ato esse laço transferencial com a Escola e colocar os trabalhos de cada um a céu aberto para sustentarmos a psicanálise à altura de seu tempo. Serão peças soltas, pequenos fragmentos, e isso não é pouco.  

[trabalho apresentado na Noite de Cartéis (30/05/2016) na EBP – Delegação Paraná]

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